quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A Aeromoça e o Cara da Rua de Cima

Minha rotina em relação à internet funciona assim: Vou direto ao Depois dos Quinze, me inspiro com os textos maravilhosos da Buna Vieira (que com certeza você já ouviu falar), depois que vou fazer meus posts e entrar em redes sociais ( da um curti lá na página do blog, e segue lá no Twitter). Hoje resolvi postar uma crônica dela que li faz uma ano e tanto amei:

   Nós nos conhecemos em 1984. Ou quase. Ele andava com os meninos da rua de cima, e eu ainda nem podia sair de casa direito. Meu pai era militar e inventava muitas regras. Lembro que minhas amigas comentavam sobre um cara bonito que tinha um sorriso engraçado e uma pinta em forma de coração no pescoço. Achei aquilo engraçado e talvez por isso jamais esqueci daquela conversa no beco. O tempo passou, meus pais se mudaram e eu nunca mais vi, do portão ou da janela de casa, o garoto passar.
Os tempos mudam. A época de escola consome tempo demais quando você tem que decidir o que fazer no seu futuro. Conheci alguns caras, me apaixonei três ou quatro vezes, mas nunca tive um daqueles amores que fazem a gente querer ficar junto com alguém até os oitenta e poucos anos. Achava que o problema era comigo. Não via graça em quase ninguém. Todos da faculdade e depois trabalho pareciam tão iguais. Tão assustados com a vida e com as possibilidades que ela dá. Eu me divertia com meus personagens preferidos nos filmes que assistia nas horas vagas. Isso me levou a mudar de profissão. Queria vi-ver o mundo. Vi que pra ver eu teria que partir. Então, em um domingo cinza qualquer, fiz as malas e fui pra Barcelona. Fiz cursos, algumas provas e gastei meus últimos trocados. Virei aeromoça e me reinventei. Minha mãe acha que eu enlouqueci, meu Pai faleceu em 94. Mas com certeza diria que eu tenho vento na cabeça. Talvez eu deva acrescentar coração. Ok.
Não tenho rotinas e essa é coisa mais legal do meu trabalho. Conheço mais de cem pessoas completamente diferentes todo santo dia. Algumas tenho vontade de saber a vida, outras de entrar nela. Às vezes penso que teria dado certo com o Lucas do voo 3043. Se eu não tivesse o comparado tanto com o Matheus do 2940. São só suposições e eu nunca vou saber como seria porque eles provavelmente agora estão vivendo em continentes diferentes e nem lembram o meu último nome.
O mundo olhando da janela de um avião é menos complicado. Nossa imensidão interna não se compara com a imensidão que existe lá fora. É engraçado né? Teoricamente todos nós passamos pela mesma coisa nessa vida. Nascemos, crescemos, estudamos, casamos, viajamos, envelhecemos, ficamos bobos e achamos que sabemos da vida, então morremos sem nem saber direito o final da história. A graça é então o que acontece enquanto ela está sendo escrita. Deve ser isso. Tenho pânico de finais. Odeio quando a música acaba, quando chegamos no destino ou quando apagam a luz e já é hora de dormir.
Leio todos os dias e costumo deixar uma marca de batom em cada espelho que passo. Recebo no dia 28 de cada mês e coleciono cartões postais. Escrevo neles sobre os países que visito  os lugares que mais gostei, mas ainda não sei se tem alguém mundo que realmente se interessa por isso. Minha tia não conta.
Ontem fiz SP-PARIS. Não vou mentir, fiquei olhando no pescoço dos caras com trinta e poucos pra ver se por acaso o acaso tinha me preparado uma surpresa. Não é pedir demais, né? Eu boto fé que aquele garoto da rua de cima ainda será alguém no destino dessa minha vida cheia de destinos. Não foi o dia do grande encontro. Mas tenho certeza, ele está por aí, e uma hora ou outra, precisará voar para algum lugar distante. E eu? Vou mostrar as saídas de emergência que levam nossa história ainda inexistente para um lugar onde ela sempre fez o maior sentido. Minha mente.

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