segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Amor Hippie

O ano era 1968, morava com a minha avó em Paris, o Brasil estava sob a ditadura militar desde de 64. Não  tinha nenhum ideal ou coisa parecida, era apenas mais uma menina sem graça no meio do movimento estudantil, acompanhava uma amiga quando alguém puxou meu braço e me beijou intensamente - eu que nunca havia sido beijada.
- Me desculpe - disse um garoto francês de cabelo longo. - Tinha que me livrar do guarda...
- Então me achou um bom objeto - falei sem conter o riso.
- É.
- É?
- Gostei de você, sei que também gostou de mim, vem comigo para o acampamento.
Fiquei chocada, aquele rapaz de blusa colorida estava me chamando para morar com ele.
- A vida não funciona assim. Eu tenho família, responsabilidades.
- Responsabilidades? - ele grito - desconheço essa palavra. Eu posso te fazer feliz.
Ao ouvir as cinco últimas palavras fui convencida, ninguém nunca me prometera a felicidade antes.
Estávamos em um acampamento cheio de garotos e garotas com roupas coloridas, alguns estavam sem roupa, o que me assustou de princípio, mas logo me acostumei.
O nome do meu amado era Rennè, que me ensinou o que é liberdade. Conheci uma menina de quinze anos que também era brasileira, seu nome era Thalita - logo nos tornamos melhores amigas.
Rennè e eu pichamos em um muro a frase: Il est interdit d'interdire ( é proibido proibir). Vivi o mês mais feliz da minha vida, mas logo acordei do meu sonho, Rennè estava aos beijos com Thalita no meio do acampamento.
- Rennè -  falei alto para que ele escutasse. - Como você teve coragem?
Sem se abalar ele caminhou com a mesma confiança se aproximando de mim.
- Julie, o amor é livre - falou tentando colocar a mão no meu rosto, mas eu me esquivei. - Pensei que você soubesse.
Corri pra longe. Fiquei dois dias afastada do acampamento. Não conseguia ter raiva da Thalita, sabia que o Rennè estava certo, então voltei.
Só não que acontecesse o que aconteceu.
Marie um garota de vinte e poucos anos que usava uma calça jeans, um top marrom, vários anéis, veio na minha direção chorando.
- Eles estão mortos - me abraçava chorando. - O sonho acabou pra eles.
- Eles quem?
- Rennè e Thalita.
Tudo escureceu. Quando acordei estava numa tenda com cheiro de incenso de canela.
Marie me contou como tudo tinha acontecido, como eles enfrentaram os policiais que os agrediram. 
- Thalita não resistiu.
- Rennè - falei sentindo as lágrimas queimarem meu rosto. - Onde ele está?
- Ele trouxe a Thalita - falou engasgando - estava muito machucado, sinto muito.
- Onde ele está - me ouvi gritando.
- Enterrado perto das rochas - se afastou, voltou segurando um pedaço de papel. - Ele pediu para que te entregasse.
Me sentei nas rochas olhando para o monte de terra cheio de flores onde estava o corpo de Rennè, abri o papel, li aquelas poucas palavras, sentido um sorriso se formar nos meus lábios.

Hoje sou uma velha de sessenta e três anos. Construí uma família, tenho até netos. Mas penso em Rennè todos os dias, pois ninguém nunca cumpriu umas promessa como ele. Me fez feliz.




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